Pesquisadores do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP) afirmam que a estiagem histórica que o estado do Amazonas sofre desde setembro já era prevista em análises climáticas. Segundo o professor, Augusto José Pereira Filho, entrevistado pela Sputnik Brasil, de acordo com uma publicação no site do Jornal do Brasil.
Para ele, os efeitos que podem afetar todo o país poderiam ter sido previstos e minimizados pelo poder público.
“Essa seca já estava prognosticada desde meados de junho deste ano. Então, já [deveria] haver um plano de redução desses impactos para [a] mitigação de impactos”, disse inicialmente.
Segundo ele, a meteorologia nos dias atuais é dotada de ferramentas muito importantes. “Infelizmente, parece que ainda não aprendemos a antecipar essas situações de maneira apropriada. Com isso, toda essa população, que depende da água e dos rios para o transporte, acaba sofrendo de forma bastante dolorosa, e não deveria ser assim”, completou.
A escassez resultou no rio Negro atingindo o seu nível mais baixo em 121 anos de medições em Manaus (AM).
O fenômeno de estiagem já atingiu mais de 633 mil pessoas e deixou 59 municípios estão em estado de emergência.
Na região, especialmente no interior, algumas cidades enfrentam problemas de abastecimento de água potável, alimentos e insumos.
Fora das condições normais
O meteorologista e mestre em ciências atmosféricas, Caetano Mancini, explica que a seca geralmente começa em junho e vai até meados de outubro, no fim do verão amazônico, mas que a região apresenta chuvas abaixo da média, em decorrência do fenômeno do El Niño.
“A preços é que o fenômeno siga com intensidade forte até dezembro, podendo se estender até os primeiros dias de janeiro, quando prevemos tendência de enfraquecimento gradual e desconfiguração total em meados de abril. Além disso, neste ano notamos [a] peculiaridade que potencializou o impacto do El Niño no Norte. Trata-se de um efeito combinado com o Oceano Atlântico Norte mais quente [do] que a média, o que prejudicou ainda mais as chuvas”, diz Mancini.
Chuvas
Segundo o pesquisador da USP, o El Niño aumenta chuvas sobre o Oceano Pacífico Equatorial mais próximo da América do Sul, tal área gera movimento de forma ascendente na região das chuvas sobre o oceano.
Esse ar descende sobre a região leste onde esta a Amazônia e causa aquecimento da atmosfera e inibe a formação de nuvens, sendo a região amazônica é a maior prejudicada.
“A Amazônia não é uma região produtora de umidade para ela mesma. Ela recebe a umidade do oceano Atlântico.”
Para ele, a temperatura da superfície do Oceano Atlântico Sul esta mais baixa, o que reduz a evaporação e transporte de umidade para a bacia Amazônica.
O professor também pondera que a seca impacta a região amazônica e região Sul em anos de El Niño e La Niña, respectivamente, com períodos entre três a sete anos, mas que este El Niño tem outros fatores que o intensificam, tais como maior derretimento do gelo oceânico no entorno da Antártica — provocado pelo maior transporte de calor e umidade proveniente das regiões equatorial e tropical via sistemas de frentes frias e quentes.
Essa água fria na borda da Antártica afunda para o fundo do oceano e emerge nos trópicos e produz menor evaporação, que transporta menos umidade à Amazônia.
A dependência das hidrelétricas é um dos problemas, na visão de Pereira Filho, já que as chuvas são cruciais para essa produção energética, centrada nas regiões Norte e Sul.